Pobre, preto e enjeitado

03/02/1973

CAPA

Pobre, preto e enjeitado

EVALDO BRAGA, CRIADO NO SAM, ATINGIU A GLÓRIA AOS 25 ANOS

"Os três últimos anos foram muito bons, mas este será o melhor de todos", dizia o cantor poucos dias antes de sua morte - Não chegou a conhecer pai e mãe - Carreira de sucessos interrompida por um desastre na volta de Minas - Últimos discos alcançaram êxito e gravadoras disputavam o "Ídolo Negro" - Empresário foi sepultado ontem - Milhares de fãs lamentam morte do artista (P. 8)

MATÉRIA

Evaldo Braga, criado no SAM, atingiu a glória aos 25 anos

"Os últimos três anos tinham sido muito bons", repetia Evaldo Braga, "mas este será realmente o mais importante da minha carreira, porque a glória está chegando. Devagar, mas está chegando".

O desabafo do cantor-compositor Evaldo Braga era dirigido, especialmente, àqueles que teimavam em não reconhecer o seu mérito, como autêntico campeão de venda de discos, que levou a "Philips" da Alemanha, a lhe conferir uma medalha de ouro, pelo sucesso que seus discos estavam alcançando no Brasil, através do selo "Polydor", com um total de mais de 500 mil discos vendidos, em apenas três anos de aparição na música popular, entre elepês e compactos.

Ele não desconfiava, quando pretendia levantar mais alto o seu vôo em direção ao estrelato do disco, que a morte o espreitava aos 25 anos de idade, pouco tempo depois que os longos anos de miséria e de fome tinham acabado de passar, desde a infância, quando foi abandonado pelos pais.

Para o Povo

Evaldo Braga, segundo aqueles que o conheciam, não se impressionava com as críticas a seu repertório e à sua voz. Sua preocupação era agradar o povo e vender seus discos. ¿s críticas ele respondia:

- Não gravo para a elite. Gravo para o povo, que entende minhas letras e a minha mensagem. O povo sabe o que quer e ele é que compra disco. A elite não compra disco nacional, com raríssimas exceções. A elite importa discos, desprezando os valores nacionais. Gravo para os que moram na Zona Norte, na Leopoldina, para o interior do Brasil, para uma gente que me elegeu ídolo (Ídolo Negro, era assim que ele gostava de ser chamado) e entende perfeitamente o que eu canto.

- O que me surpreende nas críticas, felizmente de alguns, é que os meus críticos não percebem que eu vendo discos em grande quantidade. Talvez não venda na Zona Sul, onde se concentra a elite, mas na Zona Norte eu sou mais eu. Vendo bem, agrado, e tanto é assim que ganhei medalha de ouro dos alemães e vou excursionar muito em breve pela América do Sul, talvez o México. Isso não acontece com quem não tem mérito.

Segredo

Evaldo sintetiza dessa maneira o que pensava sobre a sua carreira e confidenciava o segredo do seu êxito como cantor rigorosamente popular, frisando:

- O que mais projeta um cantor ainda é o rádio, apesar de toda a força da televisão. Mas a TV gasta muito a imagem da gente. Quem não tem boa imagem não dura na televisão. O rádio, não. … a voz e a mensagem. Por isso só canto no rádio. … lá que o povo escuta e compra os discos no dia seguinte.

- A televisão é boa para se aparecer de vez em quando, sobretudo quando o sucesso já está assegurado, através de alguma música, no rádio. Quem fugir a esse esquema está perdido. A não ser que tenha muito apoio publicitário e padrinhos. Como não tive nenhum, comecei assim, através do Osmar Navarro, que arranjou para mim a primeira chance de aparecer. Gravei uma música sua e minha, "Dois Bobos", e com ela fui a 12º lugar nas paradas.

- Depois as coisas começaram a aparecer, para mim e minha parceira Carmem Lúcia, filha de um grande amigo. Mas o primeiro grande sucesso foi mesmo uma música de Lindomar Castilho, "Ébrio de Amor", que Roberto Muniz arranjou para que eu gravasse. Isso aconteceu nos tempos magros em que era obrigado a dormir nos estúdios da Rádio Metropolitana. Essa música me levou ao primeiro lugar e com ela o Roberto Muniz pôde me colocar em "shows" e a me promover. Sou muito grato a essa gente.

Infância

Evaldo Braga não sabia quem eram seus pais. Sabia, apenas, que seu pai tinha o mesmo nome que o seu e sua mãe se chamava Benedita Braga. Moravam em Campos, no Estado do Rio.

- Não conheci nenhum nem outro. Eu e meu irmão Antônio fomos abandonados pelos "velhos" por alguma razão que desconheço, e até hoje não sei quem são eles. Gostaria de conhecer minha mãe e até lancei uma promoção nesse sentido, buscando descobrí-la. Foi um Deus nos acuda: apareceu mãe de todo lado. Muitas pareciam com ela, mas nenhuma me convenceu, exceto, talvez, uma que apareceu em Foz do Iguaçu, durante um "show".

- Seja como for não houve infância para mim e meu irmão. Soltos nas ruas de Campos, terminamos seguindo uma vida de muitas dificuldades, de menor abandonado, que não é fácil.

Apareceu então uma senhora, D. Denise Vieira, que decidiu nos ajudar. Foi ela que nos levou para o SAM e lá começou o aprendizado da vida. No antigo SAM, era uma selva. Tinha que saber se defender. Escolhi a posição de cozinheiro, porque era lá que estava o segredo de tudo.

- Os mais fortes dominavam o ambiente, mas sempre respeitavam o cozinheiro. Graças a isso pude conquistar a amizade de muita gente boa e o SAM ensinou os truques da vida. Sem perder a personalidade, conservando o caráter, sem me entregar aos vícios e me defendendo de golpes baixos com um sorriso ou uma palavra de fraternidade, ganhei o diploma da vida que o SAM oferecia.

De tudo

Evaldo contava que "o SAM foi a grande escola" onde tinha aprendido tudo para depois se lançar na vida fora daquela discutida instituição, assim que alcançou a maioridade.

- A posição de cozinheiro era boa, mas não dava para continuar. O elemento, assim que ganhava a maioridade, tinha que sair de qualquer maneira. Mas lá mesmo no SAM fazia minhas músicas e cantava. Nasceu naquela época a idéia de procurar o rádio e tentar a vida como cantor. Era o que mais gostava: cantar.

- Fui trabalhar numa farmácia, depois na General Eletric e na Varig. Vendo que não dava para trabalhar em escritório, fui engraxar sapatos na antiga Rádio Mayrink Veiga. Fiz amizade com funcionários, com gente famosa, mas nada disso adiantou. Não havia chance. Estava tudo fechado e os que prometiam uma chance, como Isaac Zaltman, não cumpriam. Apenas repetiam: "Qualquer dia desses você canta". Se não fosse pelo Osmar Navarro e o Roberto Muniz, jamais teria entrado para o rádio e para o disco.

- Muita gente vê alguém chegar lá no alto, mas não sabe como foi difícil. … o caso: fui um lutador. Desde pequeno sempre fui um lutador. Os que não reconhecem o valor que tenho não sabem o quanto custou para chegar ao disco e a uma grande gravadora como a "Phonogram". Parece tudo muito fácil, à primeira vista, mas não foi tanto assim. Pelo contrário: foi preciso engolir muito sapo.

- As minhas músicas estão inspiradas, quase todas, nesse tempo de luta e de sofrimento. Elas espelham exatamente o que passei, que é, na verdade, o que muitos passam. Isso explica porque meus discos vendem. O repertório vem de longe: "Tudo Fizeram para me Derrotar", "Já Entendi", "A Vida Passando por Mim", "Alguém que é de Alguém", Sorria, Sorria" (o maior sucesso de Evaldo), "Esse Alguém", "Mentira", "Você não Presta pra Mim", "Noite Cheia de Estrelas", "Esconda o Pranto num Sorriso", Não Vou Chorar" e "Te Amo Demais", uma versão.

- Essas músicas estão no segundo elepê gravado para a "Polydor". Foi um disco que vendeu muito, vendeu 50 mil. O primeiro vendeu 40 mil. Ainda estão vendendo. Os três compactos também, destacando-se o segundo deles, com a música "Só Quero", que vendeu cem mil cópias. Um compacto duplo reuniu os principais sucessos.

Evaldo Braga, "Ídolo Negro", certamente não esperava tamanha repercussão na última quarta-feira, quando se confirmou a notícia de que o acidente com o seu carro em Três Rios tinha sido fatal. Ele sabia que era muito querido, especialmente entre o público jovem e certamente não deve ter se surpreendido com a repercussão do fato. Só os que não acreditavam no seu êxito talvez tenham se surpreendido. Foi preciso ele morrer. De todas as partes os seus fãs apareceram: dezenas, centenas, milhares. Tudo gente humilde. Como ele.

Empresário sepultado

Foi sepultado ontem no cemitério doa Irajá, o empresário Paulo César Santoro, que morreu, juntamente com o cantor Evaldo Braga, em desastre de automóvel ocorrido em Três Rios.

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